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A natureza como escola

A natureza como escola

A jornada desafiadora de um jovem em busca do seu propósito de vida fez surgir uma nova forma de ver e construir a educação. Com um ano de existência, o projeto Cidade Escola Ayni começa a ser construído fisicamente em Guaporé, na Serra Gaúcha

 

Por Fábio Becker

 

Parte 1 – A partida e o desapego

O sol surge por trás dos muros e prédios, e resplandece sobre as peles de vidro e o concreto, junto a outdoors e publicidade. O tráfego e as buzinas se intensificam. Os motoristas tomam café enquanto sintonizam a rádio que oferece geladeiras e notícias requentadas. O sinal abre, pessoas com maletas e folhetos cruzam apressadas. A massa corre de um ponto a outro. De casa para o trabalho, do trabalho ao comércio. A rua torna-se mera passagem entre uma porta e outra. As crianças são deixadas na escola. À noite, os pais fatigados não têm tempo para conversar com os filhos. Todos dormem para acordar para um novo dia. É uma segunda-feira, como a de qualquer semana, como a de qualquer centro. E foi em um dia exatamente assim que o guaporense Thiago Berto cortou raízes, saiu da multidão aparvalhada da Capital gaúcha e cruzou os ares para iniciar a viagem que mudaria sua vida e a de muita gente. Em 14 de novembro de 2011, rumou a Ásia em busca de algo além das barreiras de pedra esquentadas pelo mesmo sol.

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O espírito de insatisfação e a inconformidade com os padrões sociais, bem como a coragem de encarar o novo sempre foram constantes na vida do jovem nascido em Guaporé, interior do Rio Grande do Sul. Aos 16 anos, após uma briga com o pai, foi expulso de casa, desistiu da escola e se mudou para Porto Alegre, onde começou a estudar, autodidaticamente, redes de computadores. Com 19 anos já havia fundado sua própria companhia de segurança para a internet, e a partir daí o dinheiro e o sucesso progrediram rapidamente. Conseguiu casa própria e estabilidade financeira; porém, havia ‘algo’ que lhe incomodava. “Pouco tempo depois de conseguir comprar o carro que sonhava, comecei a procurar sair sem ele de casa”, relembra. O desconforto perante o luxo, bem como a certeza de que apenas os bens de consumo já não o podiam preencher, foi o choque necessário para ‘despertar’.

 

Butão, Santiago de Compostela, Islândia: volta ao mundo e dentro de si

Sidarta, hindu da respeitada casta dos brahmanes, no afã de encontrar seu verdadeiro eu, abandonou seus pais e sua casa. Cândido deixou o luxuoso e seguro castelo onde vivia para conhecer realidades além das sombras expostas nos muros impecáveis que o cercavam. Da mesma forma que os personagens de Hermann Hesse e Voltaire, e com a mesma coragem e descontentamento dos ícones da contracultura, como Kerouac e Supertramp1, Berto, sem mais se reconhecer em meio ao caos e estilo de vida tipicamente urbanos, aos 30 anos vendeu tudo o que possuía: casa, carro e sua parte na empresa de informática. De mochilas às costas, abraçou o destino, iniciando uma jornada que, mal sabia, duraria três anos.

O ponto de partida foi Butão, onde fez voluntariado na área de tecnologia e informática para o governo. “Foi ali que trabalhei mais tempo em minha vida em termos de dedicação diária, mais até, talvez, do que antes como empresário”, conta. Depois do pequeno país asiático, visitou mais de 70 países, realizando inúmeros trabalhos voluntários e passando por aventuras marcantes como, por exemplo, percorrer a pé os 800 km do Caminho de Santiago de Compostela, e outros 22 mil Km cruzando as Américas de moto.

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No entanto, apesar de conhecer todos os lugares que sonhava ver, a verdadeira realização só se deu ao conseguir olhar para dentro de si. “Eu precisava saber quem era e porque era. Agora sei que não sou meu sobrenome, minha família ou emprego. Isso é apenas uma velha carapaça”, define. A consciência de si chegou, detalha, com o sentimento de percepção de união do Ser com a natureza. “Existe algo maior que minha conta no banco, meu CPF e afins. Na Islândia, percebi que era parte da Terra. Sentir-se em comunhão com a natureza e o todo é a única forma de se conectar consigo”, ensina.

1 Christopher Johnson McCandless, também conhecido como Alexander Supertramp ou Alex Supertramp foi um viajante norte-americano que deixou de lado o sonho da carreira bem sucedida e as convenções sociais e, em busca de si mesmo rumou à solidão gelada do Alasca, onde morreu sozinho, na natureza, em 1992 aos 24 anos de idade. O jornalista Jon Krakauer escreveu um livro sobre a sua vida, Into the Wild, publicado em 1996, que foi adaptado em filme, em 2007, dirigido por Sean Penn, Into the Wild, com Emile Hirsch como Christopher McCandless.

 

Inspiração para a missão

Se a simplicidade preencheu o vazio; se a estrada e o contato com a natureza reconectaram a alma; a plenitude só viria com a descoberta de um objetivo real para a vida. E esse chegou ao acaso, em 2012, praticamente no meio da viagem, na cidade de Cuzco, Peru.

Curioso pela aura mística e pela riqueza arqueológica do famoso berço da Civilização Inca, Berto resolveu ficar um tempo na cidade. Se candidatou como voluntário da escola Aldea Yanapay e não demorou a se encantar com os ensinamentos e a pedagogia diferenciada do lugar. “Me apaixonei pela forma que eles interagiam com as crianças, pelo que ensinavam no sentido de exemplos, de carinho, de muitos estudos de outras culturas, de outros países, crenças, outras religiões,…”, relata. “Percebi também que um ambiente inspirador, que trata as crianças assim, também provoca uma transformação no adulto”, complementa. E foi isso que disparou a ‘faísca’ que o fez perceber o que gostaria de fazer ao voltar ao Brasil: montar uma escola com uma nova filosofia de ensino.

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