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Ciência aliada à informação

Diante de um processo de transformação comunicacional, e ancorado em pesquisas e métodos científicos, o Jornalismo de Dados apresenta as notícias de uma forma nova, objetiva e mais exata.

Por Fábio Becker

“A renovação da linguagem significa a renovação da concepção do homem e do mundo”, as palavras do filosofo gaúcho Jayme Paviani dizem muito sobre o processo evolutivo da humanidade e, sobretudo, das transformações sociais advindas da comunicação contemporânea. Se muitos estudiosos baseiam os estudos de reestruturação social a partir da Revolução Industrial — destacando que ela tem pouco mais de 200 anos —, talvez, seja momento de começar a atentar à Revolução Digital.

De acordo com uma das teorias mais conhecidas da comunicação, a “Agenda-setting”,
formulada pelos pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shawn no início da década de 1970 , da Acta Diurna até o desenvolvimento do rádio e da televisão e em movimento crescente a mídia sempre foi responsável por determinar  a pauta para a opinião pública, ao preterir determinados temas a outros. Porém, como explica o jornalista Sérgio Lüdtke, com a ebulição das ferramentas digitais o “fazer jornalismo” se transformou, tentanto acompanhar a inevitável tendência da digitalização da comunicação.

Se antes, os veículos de massa eram praticamente onipotentes, hoje, a informação já não é “imposta” do meio ao espectador, mas sim, exercício de busca do próprio público. Delimitada por gostos e ideologias, a notícia chega, sem cessar  e numa quantidade assombrosa, às telas de leitores que, por vezes, tentam nada mais que afirmar sua pertencência à determinado grupo ou frente. Se a linguagem está se transformando e, desta vez, junto a ela, a forma de se informar também, é necessário que o jornalista, enquanto profissional da comunicação, esteja preparado para tal mudança. Como explica, Paviani, na obra já citada, não há como comunicar o novo com moldes antigos.

Após um longo período com modos de remuneração e modelos de negócios já  cristalizados, o comunicador  precisa buscar a especialização e novas formas de comunicar-se. Se o rompimento não é fácil, a boa notícia, segundo Lüdtke, é que o campo de trabalho se amplia muito. Na área do marketing, por exemplo, destaca que as empresas deixaram de ser fontes, para possuírem canais próprios de comunicação e divulgação. “Há um espaço dentro da comunicação, não necessariamente corporativa, mas que fala em nome de um determinado grupo, de uma determinada empresa, e que produz conteúdo”, destaca. Com um público fragmentado, explica que, também multiplicam-se os sites e espaços segmentados à diversas áreas que vão desde o entretenimento até a economia.

Os números na prática jornalística

Mais que esteriótipo ou piada, não é difícil encontrar entre profissionais e estudantes de comunicação a aversão por números. Para muitos, algarismos e letras são, usando do ditado popular,  como azeite e água. No entanto, num processo continuo de transformação, o jornalismo já se atrela amigavelmente as exatas.

Também diretor do Interatores.com, e coordenador do Master em Jornalismo Digital e do Programa de Jornalismo de Dados e Visualização no Instituto Internacional de Ciências Sociais, Sérgio Lüdtke destaca que o profissional necessita  fugir da acomodação. “A gente tem que buscar, para ser relevante para as pessoas e para ter acesso, outros caminhos e formas de tratar e distribuir a informação”. Ainda de acordo com ele, o jornalismo de dados torna-se ferramenta fundamental nesse processo.

Se o jornalismo, em sua origem, lida com o factual, não é complicado compreender como as informações, cada vez mais, abrem espaço para explicações científicas ancoradas em pesquisas qualitativas e, sobretudo, quantitativas. O Jornalismo de Dados é o processo de obtenção, construção, filtragem, análise e apresentação de bases de dados, como elemento fundamental na formulação de notícias, principalmente, em reportagens e matérias jornalísticas. Prática derivada do Jornalismo de Precisão, criado por  Philip Meyer na década de 1970 e da Reportagem Assistida por Computador, essa modalidade introduz elementos do método científico na rotina da imprensa, resultando em uma informação com maior exatidão.

Exemplo desta modalidade aplicada a realidade digital está no projeto “SãoPa“. Idealizado por  Lüdtke, com grandes pesquisas jornalísticas, o portal tem o objetivo de desvendar a cidade de São Paulo valendo-se da investigação e análise de dados. Na primeira fase explanou acerca da crise de abastecimento de água na cidade, sendo uma das fontes pioneiras em publicar imagens comparativas do nível atual dos reservatórios com o de períodos de abastecimento normal. Em sequencia, a meta é tratar de temas como: mobilidade, ambiente e o uso do espaço territorial urbano da metrópole.

Tecnologia e jornalismo

Não é novidade que a tiragem dos jornais tem decaído gradativamente na medida que o acesso a internet e a mobilidade se tornam cada vez mais presentes no dia a dia da população. Segundo Lüdtke, metade da informação jornalística já é acessada pelo celular.  Por isso destaca que se antigamente os jornais, atentos e despreparados diante de uma nova demanda — vinda do mundo virtual — simplesmente “upavam” todo o conteúdo para o site, mesmo em formato pdf, hoje a notícia deve ser editada e veiculada pensando nos suportes à que se destina. “É um desafio constante. O problema é que se a gente não põe foco nesse tipo de coisa e não acompanha, não está centrado no leitor, ficamos muito pra trás”, alerta.

Outros pontos que destaca acerca do Jornalismo de Dados são: as novas possibilidades de pensar a transmissão estética da informação; e a necessidade do processo científico em um mundo dominado pelo cruzamento de informações de pouca confiança.

Segundo Lüdtke essa modalidade dá a possibilidade do jornalista, tão centrado na escrita, passar a pensar mais “visualmente”, entregando a informação de uma forma que não seja apenas textual. “Elementos gráficos, infografia, técnicas de visualização de dados… são muitas as formas para traduzir uma grande gama de dados e informações, construindo narrativas visuais”, destaca.

Explica ainda que, diante de uma imensidão de fontes, portais, sites, e em uma época em que a notícia aprofundada ou não, parcial ou imparcial , viraliza com a facilidade de simples cliques, o profissional da comunicação precisa utilizar de novas ferramentas para analisar e interpretar a fundo essas informações que pautam a conversação cibernética e, consequentemente, física. “Um cidadão comum não vai ter a preocupação de consolidar dados para verificar a veracidade de uma história. É preciso que o jornalista assuma essa responsabilidade para entregar uma melhor informação”, finaliza.

 

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